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O Abandono de Ariadne

April 23, 2018

 

Ariadne acordou naquele dia com uma brisa suave entrando pela janela. O sol já havia despontado no horizonte e, como acontecia sempre nos últimos dias, ouvia-se o som abafado que parecia um choro vindo do subsolo.

Astérium... Ariadne lembrou com dó do estranho menino que sua mãe cuidava, com um misto de zelo e repúdio, mas que seu pai, apesar de detestar, tolerava, desde que se mantivesse escondido de todos. Mas, à medida em que ele crescia ficou impossível controlar sua sede de movimento e vitalidade. Afinal aquele estranho ser, seu irmão por parte de mãe, não se assemelhava a ninguém da família. Tinha aquela cabeça bovina, onde, com a manifestação precoce da adolescência, começou a despontar pequenos cornos.

Ela era criança quando tudo aconteceu. Lembra que, depois do ocorrido, o palácio nunca mais foi o mesmo.

Seu pai, Minos, rei de Creta, até então era tido como um homem justo, equilibrado e honesto. Naqueles idos anos, Creta estava em guerra com Atenas. Tudo começou porque seu irmão Androgeu saiu-se muito bem nas competições dos jogos em Atenas. Egeu, rei daquela cidade e promotor do evento, invejoso do resultado e amargando a derrota, decide tramar uma emboscada da qual o jovem, filho preferido de Minos, sai morto.

O ódio e o ressentimento chegam a um ponto que eclodiu a guerra. Minos orou para o deus dos mares, Posseidon, que o ajudasse a derrotar Atenas. Posseidon fez então sair dos mares o mais belo exemplar touro branco que Minos jamais viu. Posseidon disse a Minos que assim que vencesse a guerra deveria sacrificar o touro sagrado em sua homenagem.

Minos saiu vencedor mas tentou ludibriar o deus, pois queria manter o touro branco como reprodutor em seu rebanho. Então sacrificou um outro touro, muito belo por sinal, mas não o suficiente para Posseidon, que decide se vingar do rei ingrato.

Posseidon enfeitiça Pasifae, a sempre fiel esposa de Minos e mãe de seus filhos. Ariadne lembra da mãe obcecada por aquele animal. O touro, por sua vez, parecia não perceber a existência daquela mulher, dedicando a vida a pastar e cobrir as vacas do rebanho. Em desespero Pacifae pede ajuda a Dédalo, um cientista excêntrico que servia ao rei e que tinha a capacidade de criar solução para os problemas de qualquer pessoa, sem questionar razões ou métodos.

Ele cria uma vaca artificial e oca, que Pasifae utiliza para enganar e seduzir o touro. Encaixando suas partes íntimas nas partes da vaquinha, Pacifae engana e recebe o touro. Ninguém jamais se esqueceria daquele dia em que os gritos alucinados da rainha foram ouvidos por toda a ilha.

Mas a vergonha do rei somente iniciava ali, pois nove meses após nasceu aquele menino que no pequeno corpinho lembrava todo o tempo tudo o que Minos gostaria de esquecer. A rainha lhe deu o nome de Astérium, pois lhe agradava pensar que vinha dos astros e não do touro. Mas não adiantava, a cabeça bovina e um pequeno rabo anunciavam que somente metade daquele ser era humana. Para piorar, a população deu a Asterium o apelido de Minotauro, desta forma demostrando que, por mais que o rei escondesse, o touro era de Minos, fruto de sua ganância.

Minos já não podia suportar a vergonha. Pede então para o sempre disponível Dédalo que construa nos subsolos do palácio um intrincado labirinto de onde aquele ser não poderia jamais sair. Ariadne chegou a pensar que o rei não havia mandado matar aquela criança com medo de mais uma vingança de Posseidon.

Foi então que aquele menino com cabeça de touro foi empurrado para dentro do labirinto subterrâneo, de onde nunca mais saiu. Dele somente se ouvia aquele choro de solidão, que deixava Minos furioso.

Foi nos primeiros dias desta lamentação que Minos teve a macabra ideia: se ele está sozinho, vamos dar companhia. Então exigiu que a perdedora Atenas enviasse 14 jovens púberes, 7 rapazes e 7 donzelas. Ao desembarcarem em Creta foram empurrados para dentro do labirinto, e não se soube mais notícia deles. Nos dias sucessivos o choro passou. A paz se instalou no palácio por alguns anos. Mas cerca de 7 anos após, novamente iniciaram aquelas manifestações, e novos jovens foram enviados. A terceira vez que houve o pedido de envio, Atenas já não suportava a dor de perder seus jovens. Foi então que Egeu pediu que seu filho, Teseu, fosse um dos rapazes que seria introduzido no labirinto, com a missão de matar o monstro.

Foi naquela manhã ensolarada que Ariadne foi ao porto ver o barco de velas negras que se aproximava singrando o mar turquesa. Seu pai exigia de Atenas os jovens mais bonitos e saudáveis para o sacrifício, esperando assim que aquele monstro não o incomodasse e que Posseidon o perdoasse. Por outro lado, imaginava que o destino dos jovens estava ligado à luxúria e não à morte. Sempre entravam no labirinto carregando ricos alimentos, frutas e vinho, mas o que se passava dentro das galerias ninguém sabia.

Entre os jovens que saíam do barco aquela manhã, vestidos com túnicas curtas brancas, estava Teseu, que, todos sabiam, pretendia solucionar o problema. Minos não achava isto possível, mas pensou que se Teseu realizasse sua tarefa Posseidon não poderia acusá-lo de participação no assassinato do monstro.

Ariadne gostou daquele jovem esbelto e musculoso, de pele macia e bronzeada, que contrastava com a túnica alva. Sabia que o grande inimigo dele não seria exatamente Astérium, mas sim o labirinto, de onde jamais conseguiria sair. Não se sabe se por gosto pelo jovem ou por vontade de sair do palácio, ela ofereceu uma saída para Teseu, desde que ele se casasse com ela e a levasse para Atenas. Teseu, embora não visse em Ariadne sua futura esposa decide aceitar a ajuda, compreendendo que era sua única possibilidade. Ela entrega nas mãos do herói um novelo de fio de linho.

Foi com o novelo em uma mão e uma espada em outra que Teseu entrou no labirinto, com seus companheiros. Imediatamente após a entrada, ele passou a ignorar a presença dos demais, sendo tomado pelas mais diversas sensações. Não tinha mais certeza de onde estava e à medida que percorria as entranhas do labirinto visitava cenas de sua infância, via os desejos dos quais havia esquecido e também seus medos mais ocultos. O único que lembrava a ele que tinha que sair dali era aquele fio, que se desenrolava lentamente à medida em que caminhava com passos hesitantes. Ouvia, às vezes, o som de cascos e um resfolegar que parecia vir de imensas narinas. Isto o assustava e ao mesmo tempo trazia prazer, parecia uma brincadeira de esconde-esconde. Subiu e desceu escadas, passou por corredores que davam em salas grandes onde jovens nus se deliciavam com frutas e vinho, iluminados por fogueiras. Não sabia mais há quanto tempo estava ali, podia ser alguns minutos ou alguns anos.

Foi quando entrou naquela sala escura e quadrada de paredes altas de tijolo. Lá encontrou um espelho. Enquanto olhava seu reflexo que viu se materializar em sua frente o mais horrendo monstro que jamais pudera imaginar. Apavorado, jogou a espada no espelho, que se estilhaçou. Saiu correndo segurando o fio com medo de enlouquecer. Foi quando se atirou chorando nos braços de Ariadne. O labirinto parecia estar desabando atrás dele.

Naquela mesma noite embarcaram rumo a Atenas. Ariadne se viu em companhia daquele homem, que parecia transtornado. Apesar de ter cumprido sua tarefa, ele tem o sono entrecortado por gritos e não parece estar satisfeito de partilhar o leito com ela. Ele era seu primeiro homem e a promessa de uma nova vida, mas agora já não sabia se realmente poderia ser feliz.

Em um final da tarde, aportaram em Náxos, onde Teseu convidou Ariadne para um passeio. A última coisa que ela lembra é de estar com Teseu sentada em uma praia de areias brancas e que ele lhe ofereceu um doce vinho.

Acordou sozinha na praia, o sol parecia estar nascendo no horizonte, e o barco de velas negras já ia distante, apenas um ponto escuro e triste no infinito azul do mar. Quando ela compreendeu o que havia acontecido uma dor fortíssima na boca do estomago a fez vomitar. Um choro de uma dor aguda vinha de seu profundo: o abandono, ela foi abandonada, ela abandonou e traiu Asterium, seu irmão. O que faria agora, longe de casa, naquela praia esquecida?

Neste instante ouviu o som de canções e risadas, vendo uma presença masculina imponente e alegre que estava no meio daquela turba. Vinham bebendo vinho e dançando. O ser colossal e radiante lhe estendeu a mão e disse: Bem vinda a Naxos bela dama! Sou Dionísio, aceita participar de nossa festa?

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