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Cultura Biocêntrica. A vida como o centro da organização social.

May 2, 2018

Quais os princípios que orientam a construção da sociedade? A forma como construímos o mundo é reveladora de como nos posicionamos frente à realidade.

O ambiente que a humanidade vem construindo há séculos é revelador da forma como nós seres humanos nos posicionamos frente à natureza. O colapso dos recursos naturais denota um ambiente cultural afastado de uma relação de cuidado com outras formas de vida.

Já há algumas décadas ecologistas alertavam para a necessidade de mudança da perspectiva humana em relação ao ambiente natural. A primeira década do milênio trouxe este fato, evidente para os estudiosos, para as manchetes de jornais. As mudanças do clima, o aumento generalizado da violência, uma sociedade altamente tecnológica, mas que apesar dos avanços não se preocupa verdadeiramente em erradicar a miséria.

O valor que centraliza as ações do mundo civilizado está muito afastado do cuidado com a vida.  No último século, cada vez mais a sociedade se organiza em torno da produção e do consumo, agindo como se este estilo de vida não tivesse conseqüências devastadoras para o planeta e conseqüentemente para as próximas gerações.

Contemporaneamente ao colapso desta forma agonista de se colocar no mundo, surgem sementes de uma nova sociedade onde outro valor é o centro orientador.

Na década de 60 Rolando Toro, psicólogo e antropólogo criador do sistema Biodanza, cunhou a expressão Biocentrismo. Segundo ele a crise ecológica e humana em que nos encontramos se deve a uma percepção equivocada do ser humano e da natureza. O princípio que orientou a construção desta sociedade tão depredadora do ambiente natural é o antropocentrismo. Na visão antropocêntrica o ser humano se vê no topo evolutivo da organização da vida. Nesta perspectiva todos os outros seres vivos são inferiores, os recursos naturais devem estar a serviço da humanidade que não se deve respeito a eles. Nesta perspectiva o ser humano não se sente parte da totalidade vivente e sim o proprietário da vida em suas manifestações e recursos. É uma visão hierárquica que tem conseqüências recursivas dentro do próprio ambiente humano. Por exemplo, grupos étnicos e religiosos que se sentem superiores a outros, sentem-se à vontade para explorar, escravizar e matar outros seres humanos.

Na visão Biocêntrica o ser humano é parte do grande sistema da vida. Na década de setenta, o cientista James Lovelock chama a atenção pela sua hipótese de que o planeta tem um funcionamento homeostático, como um organismo vivo. Ele chama o planeta terra de Gaia e diz que o planeta é vivo. Na visão Biocêntrica todos os seres vivos e recursos naturais fazem parte de um delicado equilíbrio deste organismo vivo chamado planeta terra. Cada participante deste sistema é importante e depende do outro. A vida é o valor fundamental e que permite a existência humana. Cuidar da vida e organizar a sociedade em torno deste valor é uma mudança radical que permitirá a continuidade da humanidade como parte de Gaia. Nesta perspectiva cuidar na natureza, respeitar o planeta é cuidar e respeitar a si mesmo.

A visão Biocêntrica nos traz a consciência da fragilidade humana. Muitas vezes nos referimos ao desequilíbrio que causamos no planeta como capaz de causar o fim da vida. Estudos atuais de biologia indicam que a terra já passou por cinco grandes períodos de extinção em massa. A pesar de milhares de espécies terem desaparecido para sempre da face do planeta em cada uma destas ocasiões, a vida, como uma espécie de inteligência auto criativa sempre se regenerou em tempos muito superiores a existência humana. Ou seja, o risco que corremos não é de causar o fim da vida, e sim de causar nosso próprio desaparecimento, provocando um processo de extinção em massa, do qual a vida no planeta certamente se recuperará após algumas eras geológicas. Os tempos da vida como um todo são muito diferentes dos da existência humana.

Mas, partindo de uma visão de mundo onde a vida é o centro e o ser humano é parte da totalidade vivente, o que muda nas manifestações sociais e culturais?

A vida ao centro quer dizer a vida como sacralidade. Atualmente a ecologia passou a ser tema recorrente e inevitável para os governos do mundo inteiro. Não há mais como negar a necessidade de mudanças profundas no estilo de vida. Mas a mudança se dá a partir da atitude de muitos. E a mudança profunda de atitudes somente acontece com a transformação dos valores. O antropocentrismo agonizante desta década radicalizou sua organização baseada na produção e no consumo. Em uma sociedade Biocêntrica o ter vem em segundo plano, o ser é o mais importante. A ecologia profunda é uma ecologia do ser. Esta não é apenas uma questão filosófica. Quando o ser humano é reduzido ao estado de consumidor e vê todo seu valor no que possui passa a ter que, cada vez mais, produzir coisas para serem adquiridas, por outros seres humanos e vice-versa, em uma cadeia infindável. Na sociedade de consumo o valor não está no objeto em si, mas na capacidade de produzi-lo e adquiri-lo. Então após adquirir um objeto, na maioria das vezes, ele “perde o valor” e assim se transforma em algo obsoleto que não tem onde ser colocado em nossas casas e vidas, e então vai para um lugar, que parece não existir, pois não o vemos: o lixo. No lixo ele adquire novo valor para toda aquela parte da população que é tratada como se não tivesse valor, pois não consegue produzir nem consumir. E depois dessa “ponta inferior” da cadeia “produtivo-consumista” o destino final do lixo é o planeta, de onde o extraímos em sua forma natural. Assim geramos desequilíbrio no início, no meio e no fim do que chamamos desenvolvimento.

Na sociedade Biocêntrica existe outro tipo de relação com os objetos. Um reconhecimento de que para cada coisa que chega as nossas mãos existe um processo onde muitos recursos naturais estão envolvidos, entre eles muita energia humana. Por isso cada escolha de consumo envolve percepção e sentido. Isso que pretendo adquirir realmente me interessa? O que isso significa para mim? Os objetos passam ter a dimensão do sagrado, pois para eles existirem a natureza sagrada teve que conceder seus recursos e o sagrado suor humano teve que ser colocado a disposição. Na cultura Biocêntrica tudo o que existe tem sentido, nada é banal. Por isso tudo o que produzimos deve conter a essência do cuidado e do amor.

Na cultura Biocêntrica, palavras como cuidado e amorosidade têm um sentido superior ao da romântica banalidade piegas das histórias eternamente repetidas pela mídia.

Por falar em mídia, a construção de uma sociedade Biocêntrica passa, necessariamente, por uma revisão dos valores difundidos pela mídia. Devemos ter consciência de que os espaços de difusão de informação não são apenas informativos: são potentíssimos criadores de visão de mundo, de percepção da realidade e desta forma constroem a própria realidade. Os meios de comunicação difundem o tempo todo notícias relacionadas à violência e à catástrofe. Isto cria um estado de medo e às vezes pânico na população. Ao mesmo tempo a grande parte das produções culturais veiculadas pela mídia de massa incentiva à competição, ao consumo, à violência e à traição.

Não se trata de negar notícias ruins, mas sim de dar espaço privilegiado ao que há de sublime no humano e que certamente existe, mas não é veiculado. Os programas culturais poderiam estar muito mais ligados em gerar o fascínio pela vida, incentivando as pessoas ao conhecimento, ao estudo e as relações interpessoais e ecológicas, profundas e responsáveis.

A cultura Biocêntrica tem manifestações concretas hoje no movimento ecológico profundo, nos movimentos de respeito à diversidade e em muitas atividades e propostas, entre as quais a Biodanza e a Educação Biocêntrica.

 

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