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Guarani

May 10, 2018

 

 

Conta a lenda familiar que este foi um dos primeiros lugares para onde viajei, quando ainda estava no berço.  Depois disso, todo o ano passava ali os meses de férias de verão.

Se existe magia na infância creio que ali pude vivenciá-la, de alguma forma.

Guarani era uma pequena vila de casas de madeira na beira do mar. Sua população no verão consistia de umas cinco famílias de militares da aeronáutica e mais umas cinco casas de pessoas de minha família. Além disso, havia ainda umas dez casas de famílias variadas. Todas elas com muitas crianças. Não havia eletricidade, nem água encanada, nem mesmo estrada havia para chegar ali. Os carros vinham pela beira da praia.

No Inverno a população se reduzia a uma família, que fazia a zeladoria das outras casas.

Quando era criança, era muito tímida e me achava feia e inadequada.  Apesar de gostar muito de alguns amigos e amigas, era com facilidade que me sentia preterida e rejeitada. Então Guarani era como uma amiga que me recebia sem me julgar ou comparar.

Fazia longas caminhadas solitárias na praia. A luz deitada e laranja do pôr do sol que parecia lamber o mar e aquecer a pele batida pelo vento norte. Nesta hora de mistério siris, tatuíras e conchas saíam de seus esconderijos marinhos e o chão da orla parecia brotar.

Mas, apesar de não ser fácil para mim, também participava da comunidade infantil que dominava a região.

As casas não tinham cerca e, dado o pouco movimento de carros, as crianças passavam o dia perambulando em mil aventuras, na vastidão das dunas e nas pequenas lagoas que se formavam na areia devido ao acumulo da água da chuva.

À tarde, enquanto os adultos faziam a sesta, tinha jogos de passa anel, cinco-marias, varetas e cartas.

À noite cada criança tinha sua lanterna, e o escuro trazia brincadeiras de esconde-esconde.

Mas meus momentos preferidos eram a contação de histórias de minha prima Giki.

Eu era menina e ela era adolescente. Tão bonita... E sempre se interessava por mim, me ouvia, brincava comigo. Com ela nunca me senti mal.

Não era sempre que ela estava na praia, vinha às vezes, no final de semana. Então à noite todas as crianças se reuniam em torno dela, em frente de sua casa, que ficava na beira do mar. Ela contava mil histórias, que aparentemente tirava de sua cabeça criativa e mágica. Gesticulava e mudava a voz para fazer os personagens. Enquanto ouvíamos, olhávamos o movimento do mar, e parecia que saíam de dentro dele os personagens de suas histórias. Víamos príncipes em cavalos, e também monstros se materializarem para depois sumirem com o passar da história.

Apesar de que ainda é possível localizar no mapa um lugar chamado Guarani, este não é mais o lugar que conheci.

Acho que um dia Guarani morreu. Foi uma morte lenta a agoniada, mas tenho que admitir que esta morta.

Tudo começou com as estradas, que cortaram as dunas. Depois vieram a eletricidade e os televisores. E foram sumindo as conversas ao redor dos lampiões, as rodas de mate no final da tarde. A confiança e a liberdade foram se perdendo junto à dissolução da paisagem. Cercas, vizinhos barulhentos, intrigas, roubos.

À medida que eu ia crescendo e perdendo a ingenuidade, Guarani morria.

A morte de um lugar não é como a morte de uma pessoa, que podemos medir pela perda dos batimentos cardíacos e da respiração. Quando uma pessoa que amamos parte desta vida, sofremos, nos desesperamos, temos saudades, então um belo dia tu tens a nítida sensação de que a pessoa esta dentro de ti. A saudade passa e se transforma em companhia.

Com Guarani passou algo parecido dentro de mim. O lugar de minha infância já não existe mais no mundo. Transformou-se em um território interno no qual às vezes encontro uma menina tímida e posso abraça-la e dizer em seu ouvido o quanto ela é bonita.

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