Blog

Sobre Anjos e Fronteiras

May 21, 2018

Com a mochila nas costas e um hábito arraigado de caminhar, decidi ir rumo a Lisboa... a pé. Mas dispensei a segurança das famosas flechinhas amarelas e fui descendo pelo litoral, fora da rota dos peregrinos, parando em hostels que reservava com uma ou duas noites de antecedência.

 

 

A noite olhava o roteiro no google maps e o decorava. Quando viajamos a pé tudo pesa, então segui sem mapas, pela linha do litoral, que deveria levar ao meu destino.

Sai do Porto num dia de ressaca, depois da festa de São João, atravessando a linda ponte que divide a cidade em dois. Às sete da manhã não havia ninguém nas ruas, apenas papéis e plásticos voando, que lembravam a farra do dia anterior.

Minha cabeça fervilhava de reprovações: Sou mesmo louca fazer uma viagem assim sozinha, sem mapas... e se eu não chegar ao hostel da cidade de destino?  E se não houver caminhos para pedestre?...

Uma publicidade chamou-me a atenção. No outdoor estava escrito:” Você quer conhecer Portugal? Esqueça os mapas, siga seus instintos.”

Quem viaja a pé sabe que tem que contar com os anjos, e ali estava o primeiro, dizendo que deveria seguir. Pensei: - Ok, entendi.

É necessário fé, perseverança e muita atenção para suar o próprio caminho. Uma estrada foi se criando a cada passo, atravessando povoados esquecidos, onde não encontrava jovens e metade das casas estavam abandonadas. Saindo do glamour dos locais turísticos encontrei um Portugal de poucas opções, sem dinheiro, sem futuro. Nele buscava uma sombra , uma água, um sanduíche para repor energias, fugindo do sol tórrido do meio dia ou de uma chuva de verão que atravessava minhas roupas impermeáveis.

Sou quem passa...uma autêntica surpresa para quem sempre fica: -Como seria possível, esta mulher, por que não toma um trem, um ônibus?

Uma manhã sai de um albergue da juventude e já não sabia mais se estava indo na direção certa. Num emaranhado de ruas que me impediam de ver o mar, já não sabia mais se estava indo ou voltando.

Quando você tem de caminhar mais de vinte quilômetros em um dia, se perder pode tornar o passeio uma luta, cada quilômetro a mais pode significar entrar na fronteira da exaustão. Pergunto a uma senhora qual a direção. Ela toma minha mão e vai me guiando até o final da rua. Ali, em um determinado pondo ela diz:- Bom, aqui eu fico, tu podes seguir por ali.

Num outro dia escaldante entrei em uma padaria de um lugar esquecido pelo mundo, e uma senhora queria saber de meu caminho. Perguntou muitas coisas e eu perguntei a ela o caminho de saída da cidade. Ela montou em sua bici e disse: “Vou contigo”. Pensei: “Até onde?”

Então ela foi acompanhando meus passos devagarinho em seu pedalar e chegamos ao fim da cidade. Disse: “Aqui eu fico. Tu podes seguir por ali.”

Tive a sensação de que já ter visto aquela cena.

Um dia após, cheguei exausta à cidadezinha litorânea onde passaria a noite.

“Onde está a pensão onde tenho a reserva para esta noite?”

Nada de pensão, mas ali estava o ofício de informações turísticas. Uma moça me recebe e eu pergunto de minha hospedagem. Ela me diz: “A sim, este lugar é um pouco fora da cidade, uns 10 quilômetros daqui.”

Simples assim, dez quilômetros. Quero chorar. Ela diz: “Quer que eu te leve?”

Penso que não seria nada mau andar um pouco de carro. Ela fechou o ofício de informações e rumamos para as colinas longe do mar. Entramos em ruelas de um vila de agricultores. Paramos em frente a uma casa.

 -Bem, aqui te deixo. Tu dormes aqui e amanhã podes seguir por aquela estrala ali. Boa continuação.

Anjos e fronteiras. Toquei a campainha e ninguém atendeu. A vizinha vem, toda vestida de preto, inclusive no lenço amarrado na cabeça:

- Espera que vou telefonar para eles e avisar que tu chegaste.

Numa vila sem restaurantes e nem mercadinhos, a família que me hospeda recebe-me como mais um de seus membros. Me dizem com orgulho:- Você é nossa primeira hóspede que vem a pé. Sentei à mesa com eles para comer bacalhau, lavaram minhas roupas e não quiseram nada em troca além do preço acordado pela noite de sono.

Na manhã seguinte sigo meu caminho deixando os anjos locais, seguindo meu instinto de caminhante. Minha casa esta no território de meus sapatos, nos infinitos recursos de minha mochila. Minha nacionalidade está de passagem, não importa o que diz o passaporte. Meu irmão é o anjo sem asas que, quem sabe, gostaria de voar. As fronteiras são tantas quanto os limites que insistimos em criar.

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

Cultura Biocêntrica. A vida como o centro da organização social.

May 2, 2018

1/2
Please reload

Archive
Please reload

Follow Me
  • Grey Facebook Icon
  • Grey Twitter Icon
  • Grey Instagram Icon
  • Grey Pinterest Icon

Rua Vicente da Fontoura, 1015/201

90640-001 Porto Alegre — RS — Brasil

Facilitadora de Biodanza

Psicóloga

Escritora

Tel: +55-51-3026 8979

Whatsapp: +55-51-98137 5691

 

  • White Facebook Icon

© por Myrthes Gonzalez. Criado orgulhosamente com Wix.com